sociedades num determinado momento histórico, nesse contexto
aparecem as noções de dependência de drogas ou de perda de controle da
substância, vista como causadora de prejuízos de várias áreas da vida do indivíduo
e, para lidar com isso, surgem vários tipos de tratamentos para controlar este
problema.
Os estudos sobre tais tratamentos em sua maioria foram desenvolvidos pela sociedade
americana e o álcool se constitui como substância principal de investigação num
primeiro momento, se estendendo as outras substâncias posteriormente.
Atualmente ao se falar de drogas, inclui-se tanto aquelas descritas como lícitas,
quanto as ilícitas.
O Movimento de Temperança ocorreu nos EUA e em alguns países
europeus ao longo do século XVII e principalmente do XVIII e configurou-se
como um marco de uma posição mais liberal com respeito ao uso do álcool para
outra mais moralista, ligada a Igreja Protestante. Os bêbados eram
questionados se não estavam desperdiçando a “ boa criatura dos deuses”, contudo
ainda assim eram tolerados na sociedade. Somente no final do século XVIII é que
a literatura específica começa a relatar sobre os homens “degenerados”, e
“subjugados a bebida”. E em 1810 o álcool passa a ser tratado como doença pelo
médico Benjamim Rush.
Para Rush, os bêbados eram adictos a bebida e a dependência se dava de maneira
progressiva e gradual. Assim os adictos deveriam abster-se dela de modo
repentino e abrupto. Pensamento este presente na maioria das propostas de
tratamento da atualidade, ainda predominante nos EUA e que muito influenciou a
filosofia dos grupos de mútua-ajuda, como Alcoólicos Anônimos e Narcóticos
Anônimos.É uma das formas de tratamento mais difundidas no mundo e até hoje
está presente na maioria das instituições de assistência.
Os Alcoólicos Anônimos (AA) surgiu nos EUA na década de 30 e se
espalhou por todo mundo. Foi criado por dois dependentes do álcool
que descobriram na conversa entre “iguais” uma forma de ajuda para seu
sofrimento e assim criaram uma filosofia de recuperação baseada nos 12 Passos
para conseguir a abstinência. Como características principais estão a não
participação de profissionais no programa e a utilização da concepção de doença,
desenvolvida pela medicina. Narcóticos Anônimos (N.A) surgiu mais tarde,
destinado aos dependentes de outras drogas mas com a mesma filosofia de
recuperação do A.A.
O Movimento de Temperança perdeu força no final
do século XIX, sendo substituído por uma geração que mudou a filosofia anterior.
Este ficou conhecido como movimento Proibicionista. Aqui a visão se amplia da
substância para o sujeito e o problema passa a ser atribuído não ao álcool
propriamente dito, mas ao indivíduo que não sabe se controlar e que não é
considerado vítima, mas “uma peste e ameaça” a sociedade.
Nesse período o foco dos estudos migrou dos conceitos da adição estudados
por diversos médicos para a relação do álcool com os acidentes e crimes. Essas
questões induzem o problema a ser alvo de interferência do campo jurídico e
esvaziam o interesse dos especialistas da medicina em pesquisarem o tema. Mas
no século XX, entre a primeira e a segunda Guerra Mundial, ocorreu a associação
entre o conceito de alcoolismo e adição e a introdução da psicologia neste campo
temático, contribuindo para a expansão da psiquiatria e para a construção de um
discurso novo e especializado, que veio a influenciar o surgimento de clínicas
ambulatoriais e a aplicação de técnicas psicoterápicas na abordagem de
dependentes químicos e alcoólatras.
A visão criminal dura até 1948, quando outras idéias sobre “reabilitação”
apareceram, e hospitais penais com a oferta de tratamento específico para a
dependência de drogas são criados. Surgindo em 1953, na Califórnia, a
modalidade de tratamento denominada Comunidade Terapêutica que associava
conceitos de comunidades terapêuticas psiquiátricas com os conceitos
desenvolvidos pelo A.A.
O Daytop Village vinculado ao Departamento Jurídico do Brooklin coloca-se
como uma “nova geração” de comunidade terapêutica trabalhando numa
perspectiva que reunia conceitos jurídicos e criminais.
Com a aplicação da visão médica no tratamento dos dependentes de drogas,
surgiu no sistema privado um modelo inédito que consistia em aplicar os
conceitos do A.A com a assistência dos profissionais de saúde. A proposta foi
desenvolvida num hospital em Minnesota, hoje conhecida como “modelo
Minnesota”, e introduziu a participação de adictos em recuperação como
terapeutas leigos no tratamento dos dependentes de drogas, os chamados
conselheiros em dependência química. A profissão já foi regulamentada nos EUA,
mas no Brasil ainda em vias de se legitimar oficialmente. O tratamento era
desenvolvido num processo de 28 dias de internação, tempo máximo que o seguro
de saúde americano cobria, e de 02 anos em acompanhamento ambulatorial.
Grande parte dos tratamentos no Brasil se originou ou ainda segue
princípios do modelo Minnesota.
Carmelo J. Serra
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