Um amigo me mandou uma carta por e-mail, nesta carta escrita por um religioso encontrei alguns pontos que me chamaram muito a atenção, pois este religioso descreve nela que tem um profundo conhecimento sobre dependência química e alcoolismo, eu depois de ler a carta não pude mais que me surpreender, pois descobri nela que a profundeza do conhecimento não necessariamente tem relação com a imparcialidade imprescindível para tratar assertivamente de qualquer doença, e as vezes o conhecimento esta relacionado com apenas a falta de informação, ou mesmo as vezes eu mesmo posso ate acreditar que tenho um grande conhecimento, quando na verdade o meu conhecimento apenas representa outros interesses, alem do objetivo primordial de ajudar pessoas, que não deve ser outro que tentar evitar sofrimentos, ou mesmo a interrupção da vida.
Eu me propus a escrever estas linhas onde transcrevo parte do que nessa carta foi escrito, e sempre respeitando a opinião alheia escrevo o que eu interpreto sobre a verdade, ou melhor o que tenho aprendido depois de 15 anos acompanhando pessoas e famílias que sofrem com as doenças da dependência química e o alcoolismo.
A ideia aqui não é criar controvérsias ou gerar polemicas, nada que se assemelhe com disputa, ao final conheço muitos religiosos que fazem trabalhos extraordinários de recuperação e eu mesmo tenho dividido muitas horas e aprendido muito com pessoas muito especiais, o Padre Haroldo Rham, Padre Léo, Pastor Calebe e Mauro, ambos fundadores em São Paulo de uma das melhores Comunidades Terapêuticas do Brasil, e muitos outros na minha trajetória ate hoje, entre muitos outros.
Apenas quero discernir sobre alguns pontos desta carta, a fim de expor minha maneira de pensar e tal vez contribuir com o esclarecimento de algumas duvidas que pairam como uma sombra sobre o tratamento de pessoas dependentes químicos e alcoólatras.
Estarei semanalmente postando partes dessa carta, e expondo a minha maneira de pensar, quem sabe assim a gente consiga evitar que graças a confusão mais e mais pessoas se percam todos os dias enquanto cada vez mais se trocam papeis de atuação em nome do sectarismo.
Carta:
Uma
comunidade terapêutica sem uma capela ou oratório como local apropriado para o
despertar espiritual e seu desenvolvimento, não é recomendável. Existem casas onde a cozinha é o seu coração;
noutras, o coração é a sala de atendimento psicológico; noutras é a sala de
musculação... Ou a espiritualidade norteia todo o conjunto da casa ou não é CT.
Resposta:
Não
existe base científica que comprove que esta ou aquela religião tenham a saída para qualquer tipo de doença, em se tratando da
dependência química o associar a Espiritualidade necessária a recuperação com a
religiosidade, pelo contrario se provoca um choque e se instaura uma crise a
mais na pessoa do interno em tratamento, quer dizer que em vez da C.T.
contribuir a diluir duvidas, informar, tratar, ela se transforma no gatilho de
mais uma crise existencialista, num confronto de crenças, ao se confundir a
espiritualidade com religiosidade o coração da C.T., que tem que ser o próprio
interno é trocado por um conjunto de dogmas e disciplinas e o maior interesse
que deve ser a vida e a reabilitação da pessoa, passa a ser a pregação
religiosa.
Com
toda certeza, a espiritualidade é uma parte fundamental na recuperação de
pessoas, apenas uma parte, que junto com disciplinas e técnicas aumenta muito
as chances de reabilitação.
Um
dos maiores fatores de recaídas de volta ao uso e a falsa ideia de que só a
espiritualidade é suficiente para a recuperação.
Também
temos que levar em consideração que a reabilitação não é apenas direcionada as
pessoas que tem uma religião, pois existem Ateus, Gnósticos ou
simplesmente pessoas que não professam nenhum tipo de religião, essas pessoas
também tem total possibilidade de reabilitação e ate direito também a aceder a
recuperação e a Espiritualidade, assim mesmo outras pessoas que tem credos que não obedecem a
rituais ortodoxos (Espiritas, Umbandistas, Islâmicos e outras tantas
repeitáveis maneiras de encontrar Deus).
Temos
que ter bem claro que a Espiritualidade não é de jeito nenhum propriedade de
qualquer religião ou credo e sim de qualquer pessoa que possa ter a crença em
algo alem de se mesmo, sem que necessariamente esta crença esteja atrelada a
religião.
A gente não pode ser tão medíocre ao ponto de limitar a reabilitação a esta ou aquela religião, quando a mesma reabilitação é um caminho de liberdade e livre escolha!
Sem duvida uma capela é um lugar muito pitoresco, muito bonito de se visitar, porem, creio que o consultório da Psicologa e da Consultoria em Dependência Química são muito mais apropriados para a recuperação!
Assim como sentar-se debaixo de uma arvore a meditar ou conversar com qualquer Poder Superior que ajude na recuperação tem igual ou ate melhor efeito que uma capela, igreja, religião ou coisa parecida!
Carmelo J. Serra
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